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terça-feira, 26 de setembro de 2017

Porque o sol volta a brilhar

Hoje o que escrevo nada tem que ver com comida. Na verdade, há já algum tempo decidi que iria escrever este texto.

Não é fácil partilhar algo tão íntimo mas foi tão importante para mim ler outros relatos, outras histórias, que acho justo partilhar a minha também, pois de alguma maneira posso estar a conseguir ajudar alguém, assim como tantas outras pessoas me ajudaram a mim.

Quem costuma visitar este meu cantinho sabe que voltei a ser mamã recentemente. Foi uma caminhada com algumas curvas até ter segurado a minha pequena nos braços, até termos segurado a nossa pequena nos braços. Quando o meu filho mais velho tinha 2 anos e pouco, foi uma fase bastante complicada, por diversas razões, mas mesmo assim achámos que estava na hora de tentar ter outro filho/filha. Após alguns meses veio o tão esperado e desejado positvo. Foi no dia 25 de Dezembro de 2015. Que alegria tão grande, um dia de Natal bem diferente que marcaria uma nova fase. Que me transformou para sempre.

Este estado de alegria durou bem pouco, durou menos duma semana na verdade. Comecei com perdas de sangue. No começo eram uns borrões castanhos, hoje sei que eram pequenas perdas de sangue. Liguei para o médico que me perguntou se tinha dores, como não tinha pediu-me apenas para fazer repouso, não era preciso estar de cama, mas nada de esforços. Assim fiz. Estes borrões nunca passaram. A dada altura comecei a ter algumas dores, nada de especial mas era como se tivesse a impressão que o período estava para chegar. Liguei para o médico novamente e apenas me disse para manter o repouso. Até que um sábado à noite quando vou à casa de banho percebo que aqueles borrões já não eram borrões eram mesmo sangue. Entrei em pânico. O meu marido disse-me para ter calma, que estava muito nervosa, que andava uma pilha de nervos. Acho que não percebemos o que estava a acontecer naquele momento.

Eu não fiquei sossegada, sabia que algo não estava bem. Já tinha estado grávida, aquilo não era normal, não podia ser. No domingo assim que me levantei, mesmo já não estando a ter nenhuma perda, decidi ir ao hospital. O meu marido não pode entrar comigo no consultório pois estava com o nosso filho. Tive tanto medo. As minhas pernas tremeram. A médica esteve a ver-me, fez-me uma eco, estava de 7 semanas já daria para ouvir o coração, foi o que ela foi procurar ouvir e ouviu. Ver o meu bebé naquele ecrã e ouvir o coração a bater foi um alívio sem tamanho. No entanto, enquanto me observou ainda me tirou um coágulo de sangue e disse-me: “Isto foi uma ameaça de aborto”.

Saí de lá com a recomendação de repouso total, mais uns comprimidos, mas sem falsas esperanças. A médica explicou-me que nada haveria a fazer se o aborto tivesse de acontecer, quando há problemas a natureza resolve, explicou.
Tinha a consulta com o meu médico marcada para a semana seguinte, com 8 semanas. Essa semana passei de cama, sem perdas e sem dores. Pensei que estava a melhorar mas quando chegou o dia da consulta, na sexta feira, voltei a ter os borrões e em pé não estava nada bem, aliás andar até ao carro foi uma caminhada penosa.

Foi quando o meu médico me estava fazer a eco, naqueles instantes, que consegui perceber que algo não estava nada bem. Ele dava voltas e voltas com aquela sonda…estava a demorar tanto tempo para me mostrar o que a outra médica tinha mostrado tão rápido…foi então que me disse para me vestir, infelizmente não tinha resultado. O coração do meu bebé já não batia.

O médico deixou-me com o meu marido um pouco. Deu-nos algum tempo. O nosso coração estava despedaçado. Explicou-nos que é algo que acontece muito e que poderia acontecer de novo, pois numa nova gravidez as probabilidades são precisamente as mesmas. Mas lembro-me de ele dizer que naquele momento iria precisar de fazer o meu luto. Perguntou-me como queria proceder, se de forma natural ou com medicação. Na opinião dele a forma natural seria melhor mas que se não quisesse esperar me daria medicação. Preferi a forma natural e combinámos que lá iria dali a uma semana para ver como estava o processo de abortamento.

Com o passar das horas comecei a ficar nervosa com o facto de ter ali o meu bebé morto…era assim que eu sentia. Lembrava-me da imagem do coração a bater, foi um tormento. Fui à net, procurei por aborto espontâneo e aborto retido. Li imensos relatos de como o processo de explulsão iria ocorrer. Foi bem complicado para mim a espera. Acabei por decidir que se naquela semana não acontecesse ia pedir a medicação, pois psicologicamente estava a ser muito complicado de gerir.

Foi quarta-feira que aconteceu. Comecei com algumas dores durante a manhã, mas nada de especial, nem foi preciso tomar qualquer remédio. Depois do almoço, estava com um pouco mais de dores, deitei-me e foi quando comecei a sentir que estava a perder bastante sangue. Não me assustei, sabia que teria de ser assim, mas não tive coragem de me levantar durante 3 horas…não sabia bem o que ia ver e faz-me muita impressão ver sangue. Como estava sozinha, acabei por ter de me levantar para me limpar. Voltei a deitar-me pois continuei a perder muito sangue, até que por volta das 19 horas fui à casa de banho e ouvi um barulho que ainda hoje me lembro. Não dá para esquecer.

Disse ao meu marido ( que entretanto já estava em casa) que tinha feito a explusão do embrião, senti perfeitamente, mas sem dor física. Não tive coragem de olhar mas o meu marido viu. Depois disto a hemorragia parou. Fiquei um pouco fraca mas sem dores. Não foi um processo muito doloroso em termos físicos para mim.

Sexta-feira quando voltei ao médico, ele confirmou que o útero estava limpo, que iria perder ainda um pouco de sangue, durante 2 ou 3 dias mas que iria parar. Disse-me para esperar 2 ciclos e que depois poderia voltar a tentar engravidar. Mas naquele momento disse-me para ir passear com o meu filho. Fui com o meu marido e com o meu filhote comer um gelado gigante nesse fim de semana, fui ver o sol, andei de barco e ouvi os passarinhos a cantar. Foi muito importante.

Chorei tudo o que precisei, várias vezes. Respeitei o meu tempo e vivi o meu luto. Li muitas histórias como esta para perceber que havia um caminho depois daquela dor toda. Mesmo quando não parecia possível superar, ler aqueles relatos fez-me perceber que sim, havia um depois e que mesmo sabendo que nunca iria esquecer, a vida ia continuar, por isso decidi partilhar esta história.

Se tudo isto deixou marcas? Sim, deixou. Vivi a gravidez da minha filha com mais medo, principalmente durante o primeiro trimestre, mesmo sabendo que há coisas que não controlamos só quase com 5 meses é que consegui libertar-me um pouco mais, começar a pensar no quarto, nas roupinhas, nesse tipo de coisas. A sombra do medo esteve presente sempre, não vou mentir, mas se é verdade que há coisas que não controlamos, também é verdade que podemos escolher a forma como as vamos viver. Viver ou não viver no medo é uma escolha nossa. Mesmo tendo esta noção sei que acabei por ter mais medos do que gostaria, mas fiz o melhor que consegui.

A forma como hoje lido com a minha filha também é fruto de toda esta vivência, estou mais galinha. Aprendi a dar mais valor ao que tenho. É complicado explicar isto mas existe em mim hoje uma profunda gratidão à vida, a Deus, duma forma que não conseguia sentir antes disto, mesmo já sendo muito grata por tudo.

Acho que devemos sempre aprender com o que nos acontece, foi o que tentei fazer. Foi preciso dar tempo ao tempo. Nunca vou esquecer mas segui em frente. O choro da minha filha quando nasceu foi o começo duma nova etapa. Tenho dois sóis na minha vida, um marido que amo e que me ama, só posso agradecer e ser feliz.

Perceber que a vida segue, sentir a superação desta dor nas outras pessoas ajudou-me a superar a minha dor, por isso aqui está o meu testemunho. Pode ser que ajude alguém a perceber que o sol vai voltar a brilhar também.